SVE no país dos quatro mundos, Equador

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O país:

Localizado na metade do mundo, no Equador podemos dar um passo desde o hemisfério sul até ao hemisfério norte. É possível num só dia caminhar pela bela costa do pacífico, pela imponente cordilheira dos Andes e pela secreta floresta Amazónica. No meio do oceano pacífico encontram-se as esplêndidas ilhas dos Galápagos, com o seu incrível património marinho e terrestre.

O Equador alberga a maior diversidade de animais e plantas por quilómetro quadrado do mundo, sendo possível neste pequeno país visitar diversos ecossistemas do planeta.

As suas frutas:

Com toda esta riqueza biológica, não poderia deixar de haver uma variedade espetacular de frutas. Frutas exóticas como a Granadilla – de sabor suave e estranha textura pegajosa, e a Pitahaya – demasiado boa mas infelizmente também com demasiado efeito laxante.

Ao falar em frutas equatorianas, não poderia deixar de referir as bananas, especialmente da Verde, provavelmente o principal alimento desta região. Aqui as bananas comem-se verdes ou maduras, cozinhadas ou cruas. Há bananas de todas os tamanhos e feitios – até mesmo bananas de cor vermelha, confecionadas de 1001 maneiras. E todas são deliciosas.

Relativamente aos vegetais, também não poderia deixar de referir a Yuca, que se utiliza em vários pratos tradicionais e se faz um pão maravilhoso, que foi um mimo com que nos deram as boas vindas na nossa chegada a Puyo.

Todos estes produtos, na sua diversidade, possuem magníficas cores e odores, o que torna os mercados locais muito bons de visitar.

Um mês pelas várias regiões do país:

Neste meu primeiro mês a viver no Equador, tive a oportunidade de conhecer um pouco das três principais regiões – a costa, a serra e o oriente. Conheci também um pouco das suas gentes, que em toda a parte são simpáticas, hospitaleiras e humildes.

A costa:

Na costa, sente-se um ambiente mais festivo e descontraído. A população é mais liberal a vibrante. Desci a costa desde Esmeralda até Montañita em cómicos autocarros que variam entre música reggeaton – sim, reggeaton é o que mais se ouve neste país – e filmes violentos em que o tema do filme é sempre luta. Esta parte – o reggeaton e filmes violentos – é igual em todas as zonas do país, sendo que na zona da costa o volume é mais elevado.

Mergulhei nas quentes águas da bela e alternativa praia de Mompiche, e saboreei os seus peixes e frutos. Conheci tranquilas e agradáveis vilarejos de pescadores como Puerto Lopéz, que é também a porta de entrada para o Parque Nacional Machalilla, que protege 50 Km de praias – entre elas a bonita praia de Los Frailes, e 40 mil hectares de floresta.

A serra:

Atravessei a mítica cordilheira dos Andes, onde se elevam vulcões de mais de cinco mil metros de altura com neves perpétuas. Desci até à Lagoa de Quilotoa, um lugar mágico onde se forma uma lagoa dentro da cratera de um vulcão já extinto, a quase 4000 metros de altitude. Constatei ser verdade algo curioso que me tinham dito, chove sempre às 12h da tarde.

Ao longo da cordilheira observei surpreendentes vales e pitorescas povoações. A população da zona da Serra é mais pitoresca, todos com os seus trajes característicos, e transmitem uma profunda tranquilidade, quase mística, que combina com a paisagem.

Aqui, além do reggeaton sempre presente em todo o país, também se ouve a característica flauta de pã andina. Existem três tipos de flauta de pã – siku, antara e rondador, sendo que esta última pensa-se que teve origem no Equador e sul da Colômbia.

O oriente:

Caminhei por trilhas do oriente, como é conhecida esta zona onde se encontra a floresta Amazónica. Em Mera, mergulhei nas águas frias do rio Tigre e admirei a verocidade do rio Pastaza, que com o seu curso forma a fronteira entre a província de Pastaza e a província de Morona Santiago. Deslumbrei-me com a beleza da Laguna Azul, em Tena, que na realidade corresponde a uma série de piscinas naturais formadas por um afluente do rio Jatunyacu e rodeadas por floresta.

Vi e ouvi lindos animais exóticos, como a Arara-vermelha, a Arara-canindé, a cobra-verde e a tarântula. Conheci um pouco dos povos e da medicina natural desta região.

E é aqui, no oriente, que estou a realizar o meu Serviço de Voluntariado Europeu (SVE). Aqui, na misteriosa região amazónica, mais especificamente em Puyo.

Puyo é a principal cidade da província de Pastaza. Esta é a maior província do país, no entanto, é também a menos povoada. Ainda assim, é extremamente diversificada  culturalmente.

Só nesta província, em Pastanza, estão presentes 7 nacionalidades indígenas, sendo elas: Achuar, Andoa, Shuar, Kichwa, Shiwiar, Waorani e Zapara. Uma nacionalidade indígena diz respeito a um conjunto de povos milenares e anteriores ao Estado do Equador, cada qual com o seu próprio idioma e a sua própria cultura. É relevante também referir a existência de povos sem contacto voluntário com a sociedade nacional.

Apesar de a língua oficial deste país ser o espanhol, mais especificamente o castelhano, há uma percentagem da população que não fala esta língua. Há muitas crianças na escola que têm dificuldades com o castelhano e que têm vergonha do seu idioma e origem indígena, pois existe bastante discriminação e associação dos povos indígenas com a pobreza e a delinquência. Por outro lado, há pessoas e movimentos a trabalhar para a recuperação e conservação destas identidades.

Um mês de SVE:

Além de variada culturalmente, esta região é também muito diversificada biologicamente. Aqui, tudo tem vida. Os processos biológicos ocorrem com maior rapidez devido às altas temperaturas e à elevada humidade existente no ar… aqui “a vida transpira”!

O meu projeto de voluntariado está relacionado com agricultura biológica. É muito interessante trabalhar com a terra num lugar em que existe tanta vida. As plantas crescem mais rapidamente, tal como as pragas.

É curioso ver uma tarântula a caminhar pelo campo de futebol, e ninguém se preocupar com isso até porque, ao contrário do que eu pensava, não é um animal tão perigoso, porque afinal o seu veneno não mata, apenas é doloroso. É muito agradável acordar ao som de uma Arara-canindé pousada num cabo de eletricidade em frente da minha habitação.

Estou a viver numa comunidade rural. Os vizinhos, as crianças e os cães têm uma vida um pouco dura. As crianças vivem de uma maneira mais livre e são, por isso, de certo modo mais independentes… os cães imploram por comida com os ossos a sair pela pele.

A província de Pastaza é a mais pobre de todas províncias equatorianas. As pessoas vivem de um modo muito simples e parecem ser felizes assim.

É aqui, na comunidade La Libertad, que passo a maioria dos dias. As crianças de manhã vão à escola, e voltam pela hora de almoço, esperando ansiosamente que as minhas colegas voluntárias abram a biblioteca. Eu, por vezes, estou na biblioteca planificando coisas, outras vezes estou pelo viveiro trabalhando na agricultura e, especialmente nos últimos dias, trabalhando com o composto que se está pela primeira vez a fazer aqui. Este composto vai ser utilizado para adubar o solo da estufa, e assim ajudar a produzir alimentos para a comunidade.

Um dos objetivos deste projeto é incentivar a comunidade a produzir os seus alimentos, e produzi-los duma maneira saudável para eles e para o meio ambiente. Tem o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental e a auto-suficiência, para assim amenizar a pobreza local existente.

Por vezes, nestes meus trabalhos de agricultura, tenho a ajuda alegre das crianças. À terça-feira existe a Minga, que é um trabalho comunitário que tenta envolver as comunidades vizinhas neste projeto. Durante 3 semanas, na Minga, teve lugar um interessante Workshop com uma profissional em permacultura, que nos ajudou e orientou imenso neste duro trabalho de agricultura num clima tão intenso.

Às segundas-feiras temos tido a presença de umas queridas senhoras equatorianas que nos têm ensinado a cozinhar e dado a provar pratos tradicionais do Equador, tendo sido os meus preferidos os “Bolones de verde” e “Seco de pollo”.

A experiência:

Para mim, esta experiência tem sido uma viagem… uma viagem por lugares e pessoas diferentes e bonitas e, mais que isso, tem sido uma viagem no Tempo. Tenho a impressão que existem algumas parecenças entre a presente realidade de aqui e a realidade do meu país há 50 anos atrás.

Etimologicamente, em inglês travel deriva do francês travail, que por sua vez tem origem no termo latino tripalium, que designa um instrumento de tortura. Viajar é partir rumo ao desconhecido e, dessa maneira, “perder a inocência”, perder o nosso conforto e as nossas referências.

A viagem obriga-nos a assumir o desconforto, a solidão e a interromper a vida a que estamos habituados num determinado lugar. Viajar é essencialmente descobrir, descobrirmo-nos a nós e o reflexo das nossas vidas nas etapas da viagem, assim como descobrirmos o outro sem o conforto das referências que nos são imediatas.

Não é só importante o que se vê, mas sim como se vê e o processo de transformação mental que ocorre e nos transforma.

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