A minha experiência de SVE e a metamorfose ocorrida

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Ao estar a meio da duração desta experiência, sinto que já não sou exatamente a mesma pessoa que aqui chegou, no dia 2 de Maio. Tal como eu imaginava, esta experiência que me põe fora da minha zona de conforto, está a ajudar-me a crescer, a tomar mais consciência de partes de mim e a desenvolvê-las. Está a levar-me a entender o meu íntimo, e a enquadrar o meu ser neste planeta em que vivemos, pondo-me à prova ao ter que lidar com hábitos culturais oposto aos meus.

O facto de o que aqui tenho vivido me estar a sacudir e despertar, dá-me a sensação de que o tempo tem voado, parecendo-me que cheguei ontem e já me vou embora amanhã. O tempo é relativo, e a velocidade com que o tempo passa aqui leva-me a crer que esta experiência está a ser bastante relevante na formação do meu ser.

Tomei consciência de que certas qualidades que acreditava estarem mais desenvolvidas em mim, tal como a tolerância, na realidade ainda carecem de ser bastante trabalhadas. No entanto, o simples facto de tomar esta consciência é bastante positivo, pois a tomada de consciência é o primeiro passo para o aperfeiçoamento.

O que me levou a tomar esta consciência foi observar, por exemplo, a irritação que me causava passar os dias a ouvir repetidamente as mesmas músicas de má qualidade e em altíssimo volume dos vizinhos, que muitas vezes me impedia de dormir nas horas a que estou acostumada, pois aqui as pessoas costumam deitar-se por volta as 9h da noite e às 6h da madrugada já todos estão acordados. Este biorritmo bastante de acordo com a natureza, em consonância com a luz solar, é bastante difícil de acompanhar por pessoas como eu, com alguma tendência a ser notívagas. Tenho também praticado “exercícios de abstração” ao tentar manter-me tranquila enquanto ouço berros de várias crianças a chorar a mesmo tempo, por motivos como o de não lhes ser passada a bola de futebol, e quando ouço a mesma pergunta de “que horas são” de 5 em 5 minutos, todos os dias. As crianças sempre querem saber que horas são enquanto a biblioteca não abre, ansiando pela sua abertura. E este é o único momento em que me parece que as horas são importantes, pois aqui ninguém cumpre horários (tão pouco consigo entender quais são os horários das refeições) e ninguém usa relógio. Alguns são os “exercícios de abstração” ou espécie de meditação que todos os dias vou praticando.

Além dos exercícios praticados através da audição, há também exercícios que pratico pela visão, como o tentar abstrair-me de todo o lixo, especialmente plástico que está espalhado por toda a parte, até mesmo na estufa onde todos os dias pratica agricultura biológica. Sim, poder-me-ia dar ao trabalho de recolher todo esse lixo, e já o fiz algumas vezes, mas é um trabalho um pouco inglório, pois aqui a maioria das pessoas deita o lixo para o chão sem fazer caso algum de isso. Tento também abstrair-me da maneira como os animais são tratados e tento não ficar tão afetada por ver todos os dias os cães esfomeados, a serem atropelados frequentemente ou a morrerem por outros motivos. Sou um pouco mais sensível que a maioria das pessoas em relação aos animais, mas começo a compreender que estes não sejam tão bem tratados quando vejo crianças que também estão desnutridas, com aquelas barrigas inchadas típicas das fotografias de alguns países pobres de África. Ao confrontar-me com a pobreza, tento também ser mais tolerante em relação ao facto ao facto de sentir que muitas vezes se estão a tentar aproveitar ao máximo, tentando espremer quanto dinheiro possam a pessoas como eu, “gringas”, que vêm do hemisfério sul do planeta e por isso costumam ser privilegiadas.

Outra coisa que não poderia deixar de referir é a tolerância que tenho ganhado em relação às bactérias. Tenho perdido muita da “esquisitice” que tinha e a excessiva preocupação em relação à higiene na alimentação. Nos restaurantes muitas vezes o único talher que fornecem para comer,  quer seja peixe, carnes ou saladas, é uma colher, o que te obriga a usar as mãos para conseguires comer, mãos que antes não podes lavar porque os WC não costumam ter detergente para lavar as mãos. Podes também comprar comida nas barracas de rua e nem sequer ter colher. Na escola onde trabalhei, cada aluno e professor lava o seu próprio prato e colher, e a única coisa que é usada na limpeza é água, que por vezes é reutilizada. Melhor que isto é a famosa “Chicha” uma bebida indígena que consiste em Yuca fermentada e água da chuva (ou de rio, ou de outro local onde possam recolher água), e em que o processo de fermentação é feita a partir da enzima amilase contida na saliva das mulheres que a mastiga. E é assim mesmo, através da mastigação pela boca das mulheres, que é produzida esta bebida que, de seguida, nos encontros, reuniões, etc., é partilhada por toda a comunidade com o mesmo copo, que não é um copo mas sim uma bonita malga. Para pessoas como eu, com outros hábitos culturais, parece um pouco repugnante mas é algo que, quando se está com estas comunidades, não se pode recusar, pois seria uma falta de respeito. Apesar de toda esta troca de bactérias, ao contrário do que imaginava, não tive grandes problemas no meu aparelho digestivo e, por isso, acredito que me tornei bastante mais tolerante.

Por tudo isto e muito mais, penso que a tolerância é a qualidade que mais tenho desenvolvido e, no entanto, tenho por desenvolver.

Tenho também desenvolvido um pouco outras competências, tal como a comunicação, mais especificamente a negociação. Negoceio quando compro coisas pela rua, mas principalmente negociei em relação à comida a que temos ou não direito diariamente, pois tem algumas restrições. Tenho também trabalhado a questão de dar e receber opiniões em relação aos trabalhos a realizar na fundação, estando a ganhar mais confiança em mim e nos conhecimentos que possuo e, desta maneira, estou a tornar-me mais autónoma. Algumas coisas que contribuíram para o desenvolvimento da minha autonomia, foi o facto que passar quase todos os dias a trabalhar sozinha, sendo obrigada a procurar soluções e a tomar decisões quando não tenho nenhuma orientação ou quando não concordo com as orientações. No início deste voluntariado estava à espera de receber orientações do que fazer e como fazer, mas essas orientações não chegavam e isso estava a deixar-me descontente. Agora entendo que isso, a falta de orientação, apesar de ter sido complicada, era exatamente o que eu necessitava para poder desenvolver a minha autonomia e consequentemente ter mais confiança nas minhas capacidades.

O contacto com todas estas culturas que desconhecia está a ajudar-me a ganhar uma maior consciência sociocultural. Não tinha noção que existia uma diversidade cultural tão grande neste país , nem a existência de tantas pessoas que falam outros idiomas e não falam o idioma oficial. Foi também surpreendente ver como se vive em certas comunidades mais isoladas, e saber da existência de comunidades que estão completamente isoladas, não tendo qualquer contacto com o mundo que eu conheço. Tomei mais consciência do quão privilegiada eu sou e, também, de tão ignorante em relação a  certos aspetos. Apercebi-me que certas propostas ou opiniões que tinha quando aqui cheguei, agora não me fazem qualquer sentido e mostram que não tinha noção da realidade e das necessidades das pessoas daqui, que são bastantes diferentes das minhas.

Experiências como a que tenho vivido aqui são importantes para a minha “metamorfose” e ajudam-me a ver as coisas com outra perspetiva (tal como na fotografia ahahah) mas só terei uma real consciência das competências que desenvolvi no final da experiência e após algum tempo de reflexão. De qualquer maneira, posso adiantar que, seguramente, será útil para desenvolver as minhas capacidades, a minha autoconfiança, o meu autoconhecimento e, dessa maneira, poder orientar o meu rumo, tanto a nível pessoal e social, como a nível profissional. Assim, com tudo mais bem encaminhado na minha vida, poderei alcançar o objetivo final que todos ansiamos – ser feliz!

 

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